depois que me desliguei de você, imediatamente passei à acetona. é preciso remover os resquícios, você sabe. não me desmanchei em lágrimas, como nós esperávamos que eu fizesse. desmanchei as malas e as unhas que havia feito pra te encontrar. guardei no armário as roupas sóbrias e os planos plácidos, que havia escolhido por você. desenterrei a mini saia e o salto alto que você não me deixava usar. e um batom veneno russo. não fujam, rapazes, de bocas carnudas vermelho sangue, inofensivas de desespero. desconfiem das comportadas, não das meninas de cabelos soltos e batons vermelhos. de solitárias bocas soltas na noite. bocas tristes, abandonadas. bocas como a minha, que pronunciaram palavras de amor e engoliram o que verteram. me mando hoje engasgada, meu bem. mas não espere, de novo, me ver chorar. hoje eu vou pra rua. vou atravessar o samba, vou me jogar no rock, vou esquecer que um dia saí de casa, saí dos trilhos, saí da vida, pra te encontrar.

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como um blues para um chet atkins

ele pode bem chegar bancando o favorito. George La Tour querendo me ensinar a melhor utilizar a luz de velas. pintando com cuidado, um pouco de luz e paciência novas imagens no meu escuro favorito. pode vir querendo pingar creme no meu ristretto precisamente curto e puramente amargo. ele pode entrar trazendo porta-copos ilustrados com os melhores cartazes de film noir pro meu bourbon sem gelo. ele pode gostar de Sergio Leone e de bourbon e de cores fortes nos espelhos dos interruptores. ele pode indicar o Hermann Hesse  e preferir a biografia do Lobão. pode chegar desorganizando tudo. querendo apagar das paredes a contagem regressiva. talvez ele tente incitar em mim a ambição e com isso me irrite um bocado. pode querer me levar pro dia, me convidar pruma acintosa água de coco à beira-mar. ele pode ser viciado em Doc Watson. pode aparecer disposto a tirar meus blues favoritos de um autêntico Chet Atkins unplugged. pode ser que chegue de skate e carregue consigo quinze metros de algodão tecido pra que outros não determinem o tamanho da nossa tela. ele virá todo manso, eu sei... ele vai entrar de sola no meu instinto de autopreservação.

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atrás da porta
o menino que perdeu seus kichutes
abraça os joelhos e reza
pra tempestade passar

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pouco é possível enxergar
além da brasa de um cigarro
e a fumaça só faz aumentar
a neblina 
e os olhos molhados
atrás do velho ray-ban
circulam palavras malditas,
bem ouvidas
bem bonitas, escritas
esquecidas em guarda-napos amassados
sobre mesas de bar
perdões concedidos muito antes
de pedidos tardiamente feitos
sim, por ela
mas não pelo tempo
implacável
como palavras mal ditas
e uma úlcera incurável
que se materializou onde antes só existia o simples
bom e velho vazio inexplicável
atrás do ray-ban
jazem molhados dois olhos
pregados por um fio de esperança roubado
de sentimentos que não podiam esperar





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você gira o revólver sobre a mesa num  jogo sádico e o cano de grosso calibre acaba sempre apontado para o meio da minha testa. bem no meio dos meus dois olhos vazados. eles saíram de órbita muito antes da primeira ameaça. por isso eu só olho pra frente. eu nem reajo. você não sabe, mas eu nem vejo se você se diverte ou se sofre com isso. meus dois olhos fugiram muito antes da primeira ameaça.


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sua imagem chuta meu traseiro assim que resolve tirar os cotovelos de sobre as minhas pálpebras. me oferece a mais gentil mesura que pode encontrar ao pé da cama. me carrega pelos cabelos até o espelho do banheiro e antes mesmo que eu possa molhar a minha cara inchada na pia, já tá me fazendo uma caralhada de perguntas. não, eu não sei ler tarô. nunca acreditei nessas merdas. a única previsão que eu posso te dar é a de um dia nublado. os dias são sempre nublados e não penso em operar da catarata. o médico já disse que sou um caso perdido. enxergo pelo avesso e isso não tem conserto. o dia amanheceu com o pé da sua imagem fincado no meu traseiro e, vai por mim baby, quando o dia começa assim, é sinal de que vai chover. pensando bem é isso aí. a previsão é de chuva com pancadas no fim da tarde. por isso carrego um guarda-chuva amarelo revestido de chumbo, que não pretendo dividir com você. tenho praticado o egoísmo oito horas por dia e pretendo estar em breve, entre as cinco pessoas mais egoístas do mundo na lista da Forbes.  o quinto lugar tá bom. nunca fui de muitas ambições, você sabe, e até pra obter o primeiro lugar em egoísmo deve dar um puta trabalho. e isto é um mero capricho. do plantão das  crueldadezinhas, saiba que tenho praticado algumas que eu descreveria com metáforas muito, mas muito ruins e batidas. minhas crueldadezinhas não são maiores nem melhores do que as das sereias que levam na lábia os incautos pra morte certa. ninguém manda um bundão se encantar por qualquer sorrisinho fabricado. ah, se você me visse em ação... imageticamente eu te daria algo como um gato que brinca com o jantar, apavora o animal mais fraco antes de liquida-lo  e manda pra dentro só uma partezinha por que nem estava com fome. não espalha. da última vez o ministério da saúde tentou me tirar de circulação e me fez andar com um aviso pregado no traseiro que o seu espectro tanto gosta de chutar pela manhã. ainda bem que é tão fácil driblar a fiscalização no Brasil.

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fade out. 
"wish you were here".
lembro de ter chorado da última vez que ouvi essa música, enquanto assistia você descolar as falanges da mesa da cozinha. você apertava o punho com força e olhava pra luz fria que piscava no teto quando a música parou de tocar. como quem tenta evitar o primeiro soluço. como quem tenta afastar a solidão de sempre, provisoriamente. aquela mesma solidão que você não permitiu que eu guardasse no sótão embaixo do vestido branco que eu também não pretendia usar. aquela mesma que você pediu que eu pintasse com cores vibrantes e disfarçasse de alegria nos dias de chuva que são mais raros. aquela que você dizia que tanto prezava, enquanto eu só queria estar ali ao lado do abajur alimentando minhas alergias com algum livro empoeirado. seus dedos ainda estão na mesa da cozinha. eu não limpei. não limpei nenhuma marca que você deixou. adquiri um novo hábito estranho: espalho post-its pela casa pra não esquecer por que estou aqui e você não está. deixo um rastro que não pretendo seguir, pra lembrar que eu escolhi o outro braço da bifurcação. pra não voltar. sabe como é,  as minhas memórias só contém sorrisos que escaparam pelo canto da sua boca e isso não me ajuda a esquecer. ao contrário de você, eu sou covarde. sempre tive um puta medo de olhar pra trás e dar de cara com os monstros que tranquei no sótão embaixo do vestido branco. rezo pra que eles fiquem no lugar que eu tinha reservado pra sua solidão e não assombrem a minha. à noite encosto o nariz no vitrô e conto os náufragos que passam pela avenida sem rumo, como eu sempre fazia te esperando chegar. foi assim que deixei aquelas marcas meio triangulares na janela do seu quarto. com um pouco de vapor, elas ainda revelarão breguíssimos 'eu te amo' que escrevi por ali em letra de mão.


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você me pegou desprevenida, sem assunto. desprovida de bolsos e de cigarros. distraída, pensando na morte. não que eu tenha desenvolvido nos últimos tempos algum tipo de obsessão pelo tema. simplesmente imaginava se, ao menos nessa hora, eu terei algo em comum com a Simone de Beauvoir - tipo uma pneumonia, um enfisema pulmonar, que seja. vi uma foto dela hoje, numa banca de jornal. aquela que o Sartre tirou (e que parece a daquele nosso favorito dentre todos os imãs da sua geladeira). uma amiga escreveu sobre até o amor deles ter tido "dias odiosamente comuns", ou algo assim. esse texto eu também li hoje. achei engraçada a coincidência. não exatamente engraçada, você entendeu. talvez eu procure alguma ou outra coisa dela pra ler, sim. vai me fazer bem? estranho isso vindo de você sobre ela. ah, a história de amor. incluindo os "dias odiosamente comuns"? sim, talvez nesses dias eu encontre algo comum entre nós. claro que eu tô falando da Simone! nós tínhamos um relacionamento "idiossincrático", você e eu. e dias comumente extraordinários. ou simplesmente odiosos... é, eu ainda fico nervosa com a sua presença. eu sei que você sabe... você continua insuportável. é, eu ainda desato a falar quando fico nervosa. mas não inventei essas coincidências sobre a Simone de Beauvoir, não. falta de assunto... aceito o cigarro. vem com enfisema pulmonar no verso do pacote? um vinho mais tarde? clichê? nada disso! idiossincrático. que horas?


Art_Shay_Simone_de_Beauvoir_in_Chicago_808_67.jpg (339×400)







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