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Visto do chão, você parecia ainda mais esquisitão. Meio patético com seus meiões pretos e seu enorme headphone, se balançando desajeitado embalado por algum som sessentista. Eu me divertia te observando totalmente alheio à minha presença e apenas inalava alguns centímetros cúbicos de ar, poeira, ácaros, germes e bactérias mutantes que alegremente coabitavam aquela pequena comunidade biológica você chamava de lar. Você se virou e resmungou alguma coisa sobre redecorar. De primeira não entendi bem onde você queria chegar com aquele papo. Redecorar. Tudo já estava, havia tempos, na mais perfeita desordem. Não convém mudar certas coisas de lugar. É, certas coisas são imutáveis e a gente simplesmente tem que aprender a conviver com elas - e guardar uma dose providencial de penicilina no fundo de alguma gaveta. É claro que aproveitei a deixa pra reclamar da geladeira, mesmo sabendo e mais uma vez sublinhando, que você jamais se livraria dela - você não poderia dormir sem aquele barulho infernal que ela faz. E da incômoda e insalubre inversão de cômodos que sei lá por que tinha acontecido no seu apartamento. Cozinha não é lugar de dormir. Mas é o seu bunker e ele só poderia ser assim do jeito que é. Um caos, esquisitão e divertido. Tipo você, que se balançava com seu headphone e sua indefectível indumentária acrescida de meiões por conta do inverno. De repente eu entendi que o papo de redecorar era uma tentativa de me agradar. Logo, você não estava alheio à minha presença - você simplesmente não sabia "onde colocar as mãos", ou algo assim. Quer saber? Ali do chão, no meio da bagunça que invariavelmente nos cerca, eu percebi que não precisava mesmo de nada pra amar você. E que algumas coisas são imutáveis e inofensivas. A gente só tem que aprender a conviver com elas e manter uma dose de penicilina no fundo de alguma gaveta. A gente podia tentar. E talvez fabricar penicilina. Você sabia que ela é obtida a partir de um fungo, do bolor do pão? Pode crer, a gente tem tudo pra dar certo.
Read more...Ele disse: os cinco anos que passei solteiro foram os mais tranquilos e felizes da minha vida.
Ela disse: os cinco anos que você passou solteiro, foram os mais tranquilos e felizes da minha vida também.
Respirar fundo. Agradecer pelo dia. Tocar os pés no chão. Erguer-se da cama quente. Não saber por qual motivo, mas inventar um dos bons. Tentar colocar um sorriso na cintura escapular. Fazer valer a pena. Saudar a vida. A contagem regressiva. Buscar a atitude positiva. Concretizar uns poucos planos, começando pelos menores. Calcular o risco. Pular assim mesmo. Dez passos até o banheiro. A escovação. A água fria no rosto inchado. O velho jeans. O allstar surrado. O café preto com adoçante que dá alzheimer. Mais vinte passos. A rua. Avante.
Read more..."(...)Isso é desespero. E esse é o único sentimento que guardamos depois de saber."
Do livro "Miguel e os Demônios", do meu amigo Lourenço Mutarelli.
EM MEU OFÍCIO OU ARTE TACITURNA
Em meu ofício ou arte taciturna
Exercido na noite silenciosa
Quando somente a lua se enfurece
E os amantes jazem no leito
Com todas as suas mágoas nos braços,
Trabalho junto à luz que canta
Não por glória ou pão
Nem por pompa ou tráfico de encantos
Nos palcos de marfim
Mas pelo mínimo salário
De seu mais secreto coração.
Escrevo estas páginas de espuma
Não para o homem orgulhoso
Que se afasta da lua enfurecida
Nem para os mortos de alta estirpe
Com seus salmos e rouxinóis,
Mas para os amantes, seus braços
Que enlaçam as dores dos séculos,
Que não me pagam nem me elogiam
E ignoram meu ofício ou minha arte.
DO GENIAL DYLAN THOMAS.
Assim inauguro minhas humildes páginas de espuma.




